quarta-feira, 18 de junho de 2014

ô Ana

A faculdade de medicina é um ninho de boatos, de competições, de depressão, de estresse, de descarrego, de conhecimento, de libertação. As pessoas normalmente não conseguem ter uma estabilidade emocional em todos os períodos do ano, é muita prova, muito conteúdo muita grosseria, muito foda-se você. A verdade é que muitos de nós somos sozinhos, moramos sozinhos, temos a autonomia de onde vamos, e assim praticamos um certo egoísmo nas nossas escolhas (alguns mais e outros menos) na hora de priorizar você mesmo sobre as eventualidades do dia-a-dia.
Mas acontece que ao mesmo tempo que somos super independentes e bonitões, nós falhamos e fraquejamos demais nos nossos atos, e as vitórias tem gosto de lixo quando não tem ninguém para celebrar com você. Sim, nós precisamos de alguém. Porque quando tudo dá errado nós queremos um colo. E quando tudo dá certo nós queremos dividir uma cerveja.
Então nós fazemos amigos, namoramos, dançamos,  saímos pra ver filme, comemos até explodir, rolamos de rir das besteiras que acontecem, planejamos o futuro, aparecemos nas casas dos outros sem avisar, bebemos café, vamos pra academia e brigamos, estudamos a madrugada toda, choramos por nota, choramos porque estamos sozinhos, porque não aguentamos mais, porque todo mundo é melhor do que a gente, porque aquele professor fdp tá fudendo nossa vida, e ninguém quer compromisso, e os colegas escondem material de estudo e a família entrou em crise na semana de provas. 
Acaba que tudo fica mudando constantemente sem aviso prévio a cada 5min. Mas é menos ruim quando se tem uma Ana do lado. Quando você não tá conseguindo estudar mais e já são 2h da madrugada e você manda aquele whatsapp desesperado pra ela e ela responde que tá assistindo Revenge. Quando você vira toda animada e fala: VAMOS PRA GOIÂNIA às 00h da madrugada de uma terça feira, e ela TOPA. E também quando ela fala: VAI ESTUDAR AGORA LARISSA, ou me olha com cara feia mas eu entendo que ela não tá num dia bom. Porque amizade também não é estar sempre feliz. É saber que independente de tudo de ruim, você tá sempre ali disposto a ajudar aquela pessoa. É querer compartilhar sua xerox. É sentar perto um da outro na prova mesmo que a gente não cole.  E eu realmente espero que todo mundo encontre sua Ana na faculdade, porque eu garanto que não tem nota boa que supere nem um segundo de risos com um bom amigo. :)

PS. Eu queria aproveitar esse espacinho também pra agradecer à todos os meus amigos, vocês são o motivo pelo qual eu acordo tão pulante.

domingo, 25 de maio de 2014

You know I dreamed about you, 22 years before I saw you

Todo aniversário é uma mini crise existencial. É aquele dia que não dá pra escapar dos pensamentos do tipo: "E aí, você tá satisfeita com a sua vida?", e eu vou ficando incomodada com esses flashs de ideias que vão me beliscando até que acabo tendo vontade de não ver ninguém, não falar com ninguém, sumir e ficar por conta de prestar contas pra mim mesma. E como eu não tenho problemas em fazer o que me dá vontade, e também não preciso que alguém vá comigo, foi exatamente isso que eu fiz, acordei cedo, peguei minha crocs, coloquei um shorts e peguei a estrada. 
Ok.
Depois de um mergulho em uma água MUITO fria, uma escalada de suar o corpo todo e uma cochilada em pleno sol eu fui falar um pouco com a Larissa 2014. Coloquei o que importa no papel, anotei minhas conquistas na faculdade, minhas expectativas pra esse ano, minha ética no dia-a-dia, minhas transgressões quando luto pelo que acredito, minha sinceridade com os outros, meu esforço, minhas amizades que começaram/terminaram/continuaram, minhas tentativas amorosas, minhas mudanças, minhas mini aventuras e minha convivência com meu "eu" ultimamente. E eu vi que estou melhor. E eu gosto do que vejo pela frente. E que apesar de ter um cotidiano corrido e exaustivo, eu estou feliz no final do dia. E que eu consegui depois de muito de turbulência estar em paz comigo, com a minha aparência, , com as minhas manias, com a minha chatice, com os meus defeitos, com as pessoas que eu gosto e principalmente com a minha impulsividade. E eu fui cantando com voz mais esganiçada possível pra casa as minhas músicas francesas que eu nem sei a letra direito, e sorrindo sem um grande motivo aparente, mas por pequenos pontos que me integram e me ajudam a ir pra frente a cada ano.




domingo, 12 de janeiro de 2014

Meu efeito borboleta



Chego em casa morta depois de correr os 6km do dia. Não tem ninguém em casa, estão todos viajando, mas tudo bem, eu gosto de ficar sozinha. Subo até o meu quarto e vou tirando a roupa pra tomar um banho, ligo o chuveiro mas tenho que esperar um pouco pra entrar porque a água demora pra esquentar. Fico parada sem muita função escorada na parede do banheiro.  Me olho no espelho. Acho que meu rosto está diferente, mais velho. Fazia um tempo que eu não reparava bem. Cabelo curto, molhado por causa do suor, um pedacinho de tatuagem em baixo do peito, uma cicatriz no joelho, unhas curtas sem esmalte, um pouco de olheiras e discretas rugas em minha testa. Começo a divagar como foi que eu cheguei a ser essa pessoa que tá me encarando do outro lado do vidro do espelho, já começando a embaçar.
Se não fosse aquele sorteio no meio da aula de inglês com papeizinhos rasgados do canto do fichário, que eu tirei "colégio classe" eu talvez eu não tivesse ligado pra minha mãe no recreio e decidido definitivamente que eu iria separar de todas as minhas amigas para ir sozinha pra outro colégio fazer ensino médio. Se eu não tivesse acordado e ido no último dia de aula do 1º ano, não teria feito amizade com uma garota que me contou dos seus planos de fazer intercâmbio na Alemanha, não teria comentado sobre isso com a minha família e eles não teriam me perguntado se eu também não tinha vontade de ir. Se a mulher do fujioka não tivesse me deixado sorrir na foto 5x7, talvez minha família alemã não tivesse reparado na “menina sorridente” no meio do bolo de fichas de intercambistas e  tivesse escolhido outra pessoa, ou até nenhuma. Se eu não tivesse escolhido fazer algumas matérias chatas meu diploma de lá não teria sido validado pelo MEC, e eu não poderia entrar direto no cursinho. Se eu não tivesse tido mais tempo pra pensar não teria escolhido fazer medicina. Se minha mãe tivesse me buscado na aula naquele dia, eu não teria ficado a tarde pra estudar na escola com uma menina que me falou da existência da UniEvangélica faltando 2 dias pra encerrar as inscrições. Se eu tivesse conseguido ir pra turma de PIESF que eu queria quando entrei, talvez não teria ficado próxima dos meus melhores amigos. Se não fosse cada respiração irregular, cada passo que eu não dei, se não fossem os dias que eu dormi além do que eu podia, se eu não tivesse me ferrado em todas as minhas relações, se eu não me importasse com os detalhes, se não tivesse acertado nas amizades, se eu não corresse, se meus pais aceitassem melhor as diferenças, se eu não visse o lado bom das coisas ruins, se eu não xingasse no trânsito, se eu não ficasse nervosa quando toco violino na frente dos outros, se eu não fosse atrevida, se eu não chorasse em filmes, se eu conseguisse controlar meus impulsos, se eu não tivesse bebido tanto ou se eu tivesse por um descuido, encontrado o grande amor da minha vida, eu não estaria aqui agora escrevendo essas palavras em um domingo a tarde com meu cabelo curto, molhado por causa do suor, uma  tatuagem na costela, uma cicatriz no joelho, unhas curtas sem esmalte, um pouco de olheiras , discretas rugas em minha testa e lembranças de uma vida em 21 anos e 8 meses.

domingo, 29 de dezembro de 2013

4:08 (ou, The Masterplan)

Gosto de motivos non-sense, de planos improváveis e de tiros no escuro. Para mim, uma razão pra viver mais um dia não pode ser algo palpável, tem que ir além das probabilidades, tocar os meus desejos mais profundos, beirar a realização existencial.  Os tais sonhos acordados que às vezes me doem o peito e me apertam com uma agonia respiratória de tão fortes, que me fazem ter uma crise de ausência só de imaginar a possibilidade desse mundo paralelo feito exatamente na minha medida. São eles me cansam e escravizam. Eles que me dão fôlego pra continuar. Porque são eles me levam para mim.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

13 dias para o fim de 2013

E foi assim. Ansiedade exagerada, medo e preguiça daquele ano que todo mundo já tinha me avisado que não ia ser fácil. A tal da clínica médica. E vamos virar noites, tirar notas baixas, escolher a opção errada, mandar tudo se fuder e ir dançar, encher a cara, correr, cansar, não descansar, estudar no sábado, no domingo, na academia, chorar no meio da prova, dormir nos corredores, esperar horas por professor que não vem, chegar mais cedo por professor exigente, brigar com os colegas, abraçar, ir pro ambulatório, se indignar com a situação da saúde pública, #irprarua, voltar pra casa feliz/brava/morta/orgulhosa/desapontada, fazer provas fazer provas fazer provas. E acabou. E vem a pediatria. E vem congressos, festas, pular de pára-quedas, ir para Salvador, trabalhos científicos, festas, ballett, e vem o ócio, os pensamentos perigosos, as idéias miraculosas, e adeus cabelo, e oi tatuagem, e vem os jogos, e vem depois também o aperto, o ferro, a ressaca e as noites em claro, e os ambulatórios já estão demorando muito acabar, e já não consigo acordar no horário, e tem trabalho e jornada e prova e liga e apresentação de violino tudo na mesma semana, e não dá mais pra ir em festas, e parece que nada entra mais na minha cabeça, e o esforço pra fazer algo demanda toda a minha energia, e prova e prova e prova e acabou. 13 dias pra 14.

domingo, 24 de novembro de 2013

Um sonho

Se um dia eu decidir que cansei dessa vida, eu vou para bem longe. Sei que nos meus dias vou cometendo pequenas insanidades, vou me testando, até onde tenho coragem de ir onde não é permitido. Mas quando eu estiver bem resolvida, eu vou atrás do que quero de verdade. Vou para onde ninguém me conhece, viver uma vida que não é a minha. Quero fazer pequenos trabalhos, conhecer um segredo por dia, mas dessa vez manter longe o apego excessivo, vou guardar a confiança comigo mesmo, porém quero doar sem medidas tudo que me resta do elemento X que me faz Larissa. Quando um dia eu puder me virar do avesso, quero fazer o que já tentei mas não deu certo, e agora tenho medo. Viver o que não me deixam viver. Deitar na terra. Ficar descabelada o dia todo. Beijar sem razão. Conhecer de tudo um pouco. Correr sem saber o caminho. E abandonar tudo e seguir de novo. Pra casa.