domingo, 12 de janeiro de 2014

Meu efeito borboleta



Chego em casa morta depois de correr os 6km do dia. Não tem ninguém em casa, estão todos viajando, mas tudo bem, eu gosto de ficar sozinha. Subo até o meu quarto e vou tirando a roupa pra tomar um banho, ligo o chuveiro mas tenho que esperar um pouco pra entrar porque a água demora pra esquentar. Fico parada sem muita função escorada na parede do banheiro.  Me olho no espelho. Acho que meu rosto está diferente, mais velho. Fazia um tempo que eu não reparava bem. Cabelo curto, molhado por causa do suor, um pedacinho de tatuagem em baixo do peito, uma cicatriz no joelho, unhas curtas sem esmalte, um pouco de olheiras e discretas rugas em minha testa. Começo a divagar como foi que eu cheguei a ser essa pessoa que tá me encarando do outro lado do vidro do espelho, já começando a embaçar.
Se não fosse aquele sorteio no meio da aula de inglês com papeizinhos rasgados do canto do fichário, que eu tirei "colégio classe" eu talvez eu não tivesse ligado pra minha mãe no recreio e decidido definitivamente que eu iria separar de todas as minhas amigas para ir sozinha pra outro colégio fazer ensino médio. Se eu não tivesse acordado e ido no último dia de aula do 1º ano, não teria feito amizade com uma garota que me contou dos seus planos de fazer intercâmbio na Alemanha, não teria comentado sobre isso com a minha família e eles não teriam me perguntado se eu também não tinha vontade de ir. Se a mulher do fujioka não tivesse me deixado sorrir na foto 5x7, talvez minha família alemã não tivesse reparado na “menina sorridente” no meio do bolo de fichas de intercambistas e  tivesse escolhido outra pessoa, ou até nenhuma. Se eu não tivesse escolhido fazer algumas matérias chatas meu diploma de lá não teria sido validado pelo MEC, e eu não poderia entrar direto no cursinho. Se eu não tivesse tido mais tempo pra pensar não teria escolhido fazer medicina. Se minha mãe tivesse me buscado na aula naquele dia, eu não teria ficado a tarde pra estudar na escola com uma menina que me falou da existência da UniEvangélica faltando 2 dias pra encerrar as inscrições. Se eu tivesse conseguido ir pra turma de PIESF que eu queria quando entrei, talvez não teria ficado próxima dos meus melhores amigos. Se não fosse cada respiração irregular, cada passo que eu não dei, se não fossem os dias que eu dormi além do que eu podia, se eu não tivesse me ferrado em todas as minhas relações, se eu não me importasse com os detalhes, se não tivesse acertado nas amizades, se eu não corresse, se meus pais aceitassem melhor as diferenças, se eu não visse o lado bom das coisas ruins, se eu não xingasse no trânsito, se eu não ficasse nervosa quando toco violino na frente dos outros, se eu não fosse atrevida, se eu não chorasse em filmes, se eu conseguisse controlar meus impulsos, se eu não tivesse bebido tanto ou se eu tivesse por um descuido, encontrado o grande amor da minha vida, eu não estaria aqui agora escrevendo essas palavras em um domingo a tarde com meu cabelo curto, molhado por causa do suor, uma  tatuagem na costela, uma cicatriz no joelho, unhas curtas sem esmalte, um pouco de olheiras , discretas rugas em minha testa e lembranças de uma vida em 21 anos e 8 meses.

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