terça-feira, 4 de junho de 2013

invisible inc

Eu tenho um distúrbio emocional que leva meu cérebro a pensar que a resposta adequada à todas as emoções é chorar. Então, domingo passado eu fui dormir chorando de raiva. Eu tava com tanta raiva que não tinha condições nem ao menos de organizar meus pensamentos, muito menos escrever qualquer coisa, eu só queria esganar algumas pessoas, que eu inclusive eu nem conheço. Pra contar essa história eu primeiro eu vou explicar quem é a Nini.
A Nini cuida de mim desde os meus 3 anos de idade, ela chegou lá em casa como babá e continua trabalhando lá em casa até hoje. Quando ela chegou na nossa casa ela tinha apenas até a 4ª série completa. Alguns anos passaram e ela resolveu voltar a estudar. Não foi fácil para ela, eu que sempre tive tudo na mão pude ver de perto várias falhas do sistema de ensino público como má gestão das escolas, falta de segurança, de interesse de muitos professores e alunos, de estrutura física, de valorização do profissional, de incentivo do governo... e muitos outros fatores que criam uma barreira. É foda, dá pra desanimar bastante. Mesmo assim ela continuou estudando, e esse ano ela entrou na PUC para pedagogia.
Então, esse final de semana eu estava lá em casa quando a Nini chegou um pouco triste, aí eu fui conversar com ela. Ela começou a me contar que estava com medo de não conseguir continuar na faculdade, pois era cheio de trabalhos em grupos e ninguém nunca queria fazer com ela, e ela estava se virando sozinha até então porque os trabalhos eram manuscritos, mas agora começaram a ser pedidos trabalhos com pesquisa na internet e ela não sabia como mexer, e como ninguém nem falava com ela na faculdade ela não sabia a quem recorrer. Ela me contou isso chorando. A minha vontade na hora foi de querer trucidar os colegas dela um a um, e não mudou. Eu amo a Nini, e por isso essa história mexe comigo mais do que com você, mas ainda que eu não tivesse ligação com ela, é muito revoltante observar como é normal esse preconceito social que existe nitidamente.
A Nini é uma empregada doméstica negra de 34 anos que cursa o primeiro período de uma faculdade particular bem renomada. Eu imagino ela entrando na sala de aula no primeiro dia e me dá nojo dos  olhares preconceituosos que ela com certeza recebeu. Nem um mísero indivíduo teve a decência de falar com ela. Eu tento pensar que as pessoas estão perdendo a sensibilidade, a percepção do que está em volta delas. Eu tento pensar que foi falta de atenção. Mas no fundo eu sei que a cegueira é proposital. Eu sei que as pessoas sabem, mas não ligam. Ou até querem mal. E me dá raiva, dói demais ver o sofrimento de alguém que amo e que batalhou tanto para chegar onde está agora.
Perceber o mundo está cada vez mais difícil, tudo gira em torno do “eu”, nos fechamos cada vez mais em nós mesmos. Ultimamente onde vamos não tem ninguém olhando pra cara um do outro, ninguém olha mais pela janela do carro, todo mundo só olha seu celular. Quantas vezes você não virou a cara pro além só pra não ter que falar “oi” para alguém?  Qual foi a última vez que você conheceu e conversou com alguém sem algum interesse por trás? Pense, quantas vezes você se olha no espelho e quantas vezes você olha nos olhos de alguém por dia?
Preconceito é a coisa mais ridícula inventada pelo ser humano, que melhorou do ponto de vista de escancarar na sociedade a existência dele, mas que está  “camuflado” nos cochichos, nos olhares, nos pensamentos, nos grupinhos fechados. E parece que cada vez tem mais, e com motivos cada vez mais retardados. Dinheiro, cor, opção sexual, roupa, escrever certo, não te faz melhor do que merda nenhuma. Às vezes pode ser difícil pelo fato de ser tão normal, erramos pelo automatismo. Mas eu acredito que a consciência e a vontade podem mudar uma pessoa. Eu deixo aqui o meu pedido de olhar pro lado. (e pra frente, pra trás, pra baixo...)