Eu tenho um distúrbio emocional que
leva meu cérebro a pensar que a resposta adequada à todas as emoções é chorar.
Então, domingo passado eu fui dormir chorando de raiva. Eu tava com tanta raiva
que não tinha condições nem ao menos de organizar meus pensamentos, muito menos
escrever qualquer coisa, eu só queria esganar algumas pessoas, que eu inclusive
eu nem conheço. Pra contar essa história eu primeiro eu vou explicar quem é a
Nini.
A Nini cuida de mim desde os meus 3
anos de idade, ela chegou lá em casa como babá e continua trabalhando lá em
casa até hoje. Quando ela chegou na nossa casa ela tinha apenas até a 4ª
série completa. Alguns anos passaram e ela resolveu voltar a estudar. Não foi
fácil para ela, eu que sempre tive tudo na mão pude ver de perto várias falhas
do sistema de ensino público como má gestão das escolas, falta de segurança, de
interesse de muitos professores e alunos, de estrutura física, de valorização
do profissional, de incentivo do governo... e muitos outros fatores que criam
uma barreira. É foda, dá pra desanimar bastante. Mesmo assim ela continuou
estudando, e esse ano ela entrou na PUC para pedagogia.
Então, esse final de semana eu
estava lá em casa quando a Nini chegou um pouco triste, aí eu fui conversar com
ela. Ela começou a me contar que estava com medo de não conseguir continuar na
faculdade, pois era cheio de trabalhos em grupos e ninguém nunca queria fazer
com ela, e ela estava se virando sozinha até então porque os trabalhos eram
manuscritos, mas agora começaram a ser pedidos trabalhos com pesquisa na
internet e ela não sabia como mexer, e como ninguém nem falava com ela na
faculdade ela não sabia a quem recorrer. Ela me contou isso chorando. A minha vontade
na hora foi de querer trucidar os colegas dela um a um, e não mudou. Eu amo a
Nini, e por isso essa história mexe comigo mais do que com você, mas ainda que
eu não tivesse ligação com ela, é muito revoltante observar como é normal esse
preconceito social que existe nitidamente.
A Nini é uma empregada doméstica
negra de 34 anos que cursa o primeiro período de uma faculdade particular bem
renomada. Eu imagino ela entrando na sala de aula no primeiro dia e me dá nojo
dos olhares preconceituosos que ela com certeza recebeu. Nem um mísero
indivíduo teve a decência de falar com ela. Eu tento pensar que as pessoas
estão perdendo a sensibilidade, a percepção do que está em volta delas. Eu
tento pensar que foi falta de atenção. Mas no fundo eu sei que a cegueira é
proposital. Eu sei que as pessoas sabem, mas não ligam. Ou até querem mal. E me
dá raiva, dói demais ver o sofrimento de alguém que amo e que batalhou tanto
para chegar onde está agora.
Perceber o mundo está cada vez mais
difícil, tudo gira em torno do “eu”, nos fechamos cada vez mais em nós mesmos.
Ultimamente onde vamos não tem ninguém olhando pra cara um do outro, ninguém
olha mais pela janela do carro, todo mundo só olha seu celular. Quantas vezes
você não virou a cara pro além só pra não ter que falar “oi” para alguém?
Qual foi a última vez que você conheceu e conversou com alguém sem algum
interesse por trás? Pense, quantas vezes você se olha no espelho e quantas
vezes você olha nos olhos de alguém por dia?
Preconceito é a coisa mais ridícula
inventada pelo ser humano, que melhorou do ponto de vista de escancarar na
sociedade a existência dele, mas que está “camuflado” nos cochichos, nos
olhares, nos pensamentos, nos grupinhos fechados. E parece que cada vez tem
mais, e com motivos cada vez mais retardados. Dinheiro, cor, opção sexual,
roupa, escrever certo, não te faz melhor do que merda nenhuma. Às vezes pode
ser difícil pelo fato de ser tão normal, erramos pelo automatismo. Mas eu
acredito que a consciência e a vontade podem mudar uma pessoa. Eu deixo aqui o
meu pedido de olhar pro lado. (e pra frente, pra trás, pra baixo...)





